Home / Editores / Marina Silva e a Bolha Imobiliária Brasileira

Marina Silva e a Bolha Imobiliária Brasileira

Marina SilvaHá anos eu repito que a bolha imobiliária brasileira não estoura, ela murcha. O primeiro artigo foi em Julho/2012 em um site que nem existe mais (mas você pode conferir aqui, depois repetido no Fórum Imobiliário em Março/2013, ambos bastante criticados pelos “anti-bolha”, que querem porque querem que a bolha estoure imediatamente, e também por outros que não gostaram da conotação política-comportamental do raciocínio que embasou o artigo.

Para os que torcem o nariz quando ouvem falar de Congresso Nacional e tal, lamento insistir que política é tudo em nossa vida. E para os “anti-bolha” aqui vai a “boa notícia”: provavelmente dessa vez vai.

Eu afirmo que uma suposta vitória da Marina Silva à presidência da republica vai estourar a bolha imobiliária brasileira. Certeza.

Por trás da Marina Silva está o Banco Itaú, que banca sua campanha e tem como coordenador de programa nada menos que Maria Alice Setubal, Neca Setúbal para os amigos, herdeira da Itaúsa, controladora do maior banco privado no país.

Detalhe: o Itaú deve R$ 19 bilhões em impostos, segundo a Receita Federal.

Um dos maiores “crimes” cometidos pelo PT, sob a ótica do sistema financeiro, claro, foi ter reduzido a taxa de juros, inclusive forçando bancos públicos a seguirem essa orientação e provocando um efeito cascata nos bancos privados.

Juros é o ar que os bancos respiram. Você já teve o dissabor de usar o limite do seu cheque especial? Pois é, a grande felicidade dos bancos é te emprestar “x” e em pouco tempo você estar devendo 2 ou 3 vezes mais do que isso. E foi bem aí que a Dilma pôs a mão (ainda que de leve, vá..).

A redução dos juros associada a mudanças nas regras de financiamento e garantia de crédito aqueceram o mercado imobiliário. A associação desse quadro com o enorme déficit habitacional, pobre cultura de consumo, aquecimento da economia e a malandragem de parte dos cidadãos brasileiros (que ignorou o Estatuto da Cidade e começou a fazer plano diretor em gabinete de construtora) fizeram com que surgisse a bolha imobiliária brasileira.

Quem tiver dúvidas se existe bolha imobiliária ou não, visite este site, lá tem vários estudos que demonstram o fenômeno.

Antes de eu dizer que Marina presidente é aumento certo das taxas de juros, vou acrescentar mais alguns ingredientes. Integra a equipe da presidenciável ninguém menos que Eduardo Lara Resende, ex-Unibanco/Itaú, ex-presidente do BNDES no governo FHC, envolvido até o talo nas privatizações do PSDB, Walter Feldman, ex-secretário de José Serra, Álvaro de Souza, ex-Citibank, Beto Albuquerque (o cara que negociou os trangênicos no Brasil, representante do agronegócio), Márcio França (vice do Alckmin), entre outros. A cereja do bolo é que Marina não tem parlamentares, ela depende de coligações no congresso, onde 72% das cadeiras é ocupada por empresários.

Chega a ser engraçado: Marina presidente é o mesmo que colocar a raposa para cuidar do galinheiro. Aliás, deviam eliminar os intermediários e colocar logo a Neca Setúbal para presidente (rs.. o problema é que aí os evangélicos não embarcam).

Toda a elite que a Marina diz não existir (debate na Band em 26/08/2014) está na sua chapa. São os bancos, os rentistas e os latifundiários que se tornaram “agricultores”. Para o agrobusiness Marina já prometeu rever a política de subsídio da gasolina (o que significa gasolina mais cara e maior lucro para os produtores de álcool).. Êba, só de falar isso as ações da Petrobrás deram um salto de 5% em um único dia (25/08/2014). Para os inocentes (que não entendem essa dinâmica) as ações da Petrobrás sobem porque a política de subsídio praticada pela Dilma afeta o lucro da empresa e diminui os ganhos dos rentistas (mas beneficiam toda a nação, caminho – só para exemplificar – completamente diferente da Sabesp em São Paulo, que distribuiu lucros e hoje o paulista está bebendo água do volume morto).

Mas afinal, como a taxa de juros pode estourar a bolha imobiliária brasileira?

A maioria dos contratos de financiamento habitacional no Brasil é feito com juros pós-fixados, e esta é a principal variável que determina o custo do financiamento. Juros sobem, as prestações vão junto. Por outro lado, é a renda das famílias que determina o limite de pagamento das prestações. Confira o exemplo abaixo (extraído de http://www.opequenoinvestidor.com.br/2013/06/por-que-o-aumento-dos-juros-e-um-risco-para-o-mercado-imobiliario/):

“Vejamos como ocorre isso na prática. Imagine que uma família tem um salário de R$ 10.000,00 e deseja adquirir um apartamento. Como as regras de financiamento impedem que o valor da prestação seja superior a 30% da renda bruta, é possível pagar um teto de R$ 3.000,00 de prestação. Observe como o valor que pode ser financiado com essa prestação varia conforme as taxas de juros sejam mais altas ou não.

Com juros de 8% ao ano, os juros mensais são de 0,643%, essa renda seria suficiente para financiar um apartamento de R$ 407.000,00 em 30 anos, dando uma entrada de R$ 81.400,00 (20% do valor do imóvel), com os restantes R$ 325.600,00 sendo financiados pela tabela SAC. A prestação inicial seria de R$ 2.998,05. Na verdade, o valor financiado seria um pouco menor, porque não levei em conta nos cálculos os seguros e taxas de administração do contrato. Nessas condições, o valor total pago ao longo dos 30 anos seria de R$ 703.496,24, ou 2,16 vezes o valor do financiamento.

Se os juros subissem um pouquinho, para 10% ao ano, os juros mensais seriam de 0,797%. A prestação inicial do apartamento do exemplo anterior já subiria para R$ 3.499,48. Isso significa que duas coisas poderiam acontecer: (1) a família teria que escolher outro apartamento, em piores condições, para financiar, a fim de que a prestação caiba no bolso; ou (2) o preço do apartamento teria que cair um pouco. No caso do exemplo, para que a prestação voltasse a caber no bolso da família, o preço teria que cair de R$ 407.000,00 para pouco menos de R$ 350.000,00 – uma queda de 14% no preço do imóvel apenas porque os juros subiram 2%. Por outro lado, o valor total pago das prestações ao longo dos 30 anos, caso alguém financiasse o valor de R$ 407.000,00, já iria para R$ 794.003,38 – um aumento de R$ 90.507,14 por causa de um pequenino aumento na taxa de juros.”

O raciocínio é muito claro: um aumento de 2% nos juros requer uma queda de 14% no preço do imóvel. Certo, mas e se a pessoa já estiver dentro do financiamento. O que acontecerá com quem comprou imóvel nos anos 2008, 2009, 2010, 2011, 2012, 2013 e 2014?? Tudo isso em um contexto de governo neoliberal, que deseja estado-mínimo, com tendências anti-Mercosul, anti-BRIC e pró-ALCA (vejam o que aconteceu com o México)?

Hoje a taxa de juros está em torno de 8%. Já chegou a 85% no governo FHC. Entendeu?

O aumento de juros finalmente vai atender o desejo dos “anti-bolha”, mas é preciso dizer que essa queda, longe de uma festa, será muito dramática, com a destruição de muito patrimônio de pessoas comuns, trabalhadores que ralam muito para viver com alguma dignidade.

Enfim, cada povo com a sua sina.

About José Ruiz

Veja também

Porque está difícil vender imóvel

O Brasil está dividido entre aqueles que sabem que o país está sendo duramente golpeado, …